domingo, 21 de fevereiro de 2016

Ano Novo !

Vamos de Conto então...

 
POR UM FIO

Estava entorpecido pela sonoridade daquela conversa. Já fazia muito tempo que não escutava um diálogo como aquele, hipnótico. Pisquei, e naquele milésimo de segundo ouvi suas vozes como que caminhando ao longe. Afastavam-se cada vez mais de mim. Pareciam estar flutuando num córrego muito calmo que os levava suavemente. Aquelas palavras - que agora mal conseguia ouvir – de súbito transformavam-se em desenhos sem nexo, mas que, inexplicavelmente, faziam muito sentido. Eram parte de uma coreografia multicolorida, repleta de imagens. E neste balé surreal surgiam figuras encantadoras que me arrastavam cada vez mais para dentro de um mundo fascinante, onírico. Confortavelmente - e eu me sentia muito confortável, relaxado e seguro – ia me entregando cada vez mais e mais. E de repente a voz:
- A deixa! A deixa!
- O quê? - Disse eu gritando num salto da cadeira onde havia pegando no sono.
- A deixa! Você perdeu a deixa. Olha. Está aqui: “Ela pega o copo.(som de passos). Batem à porta.”. A luz devia mudar para “efeito porta”. Cadê o efeito da porta?
- Hãm?
- O que há com você. Estava dormindo?
- Ah, claro. O efeito da porta.... Desculpe. Acho que acabei comendo mosca. Podemos passar a cena novamente? - Ele ficou me olhando pensativo.

Espiei o reloginho do monitor e vi que já eram quase duas horas da tarde. Nós estávamos naquele teatro desde as nove horas da manhã com apenas uma pequena pausa para um café e um cigarrinho.
- Na verdade não. - Continuou ele - Vamos fazer uma pausa agora. Atenção todo mundo! - Disse em voz alta falando pela janela da cabine de iluminação para o elenco que estava no pequeno palco do glorioso teatro Aurora - Faremos uma pausa de trinta minutos.     Quem quiser sair para comer alguma coisa pode ir mas tem que voltar rapidinho. Allan, compra um salgado e um guaraná pra mim, depois te pago.
- Ainda bem. - Disse eu aliviado - Vou aproveitar para tomar um café reforçado e fumar um cigarro. Está tudo bem?
- Sim, sim. Tudo bem sim. – Falou sem muita convicção.
- Não parece. O que foi?
- É que fico na dúvida se aquela cor azul que estamos usando na contra-luz da cena do castelo esta funcionando como deveria.
- Ah, não? E como deveria funcionar? - Perguntei num misto de curiosidade com zombaria. - Olhou-me novamente com muita seriedade.
- Não sei, cara. Queria um tom menos festivo. Acho o azul meio que...sei lá.
- Sei, sei. Azul demais.
- Isso ai! Azul demais. Exatamente.
- Posso tentar trocar as gelatinas de cor azuis por um tom lavanda, se você quiser(as gelatinas são filtros que quando fixadas na frente dos refletores geram determinada cor filtrando as demais cores).
- Demora muito?
- Uns trinta minutos.
- Tudo isso?
- O que você quer? Temos que colocar a escada no palco, preparar as gelatinas, troca-las e depois afinar os refletores novamente.
Ok. Faça isso então. - Em seguida colocou outra vez a cabeça para fora da janelinha - Pessoal, mudança! Uma hora de intervalo. - Disse lá de cima para a alegria geral de todos lá de baixo. Houve até quem festejasse como se a seleção Brasileira tivesse feito um gol numa final de copa do mundo.
Esperei ele sair da cabine e acendi meu cigarro no ato. Peguei o telefone e informei aos técnicos da casa que trocaríamos as gelatinas da última vara de luz e que já estaria descendo para ajudá-los. Eles, que por sua vez estavam de folga, prontamente invadiram o palco levando a enorme escada.
O espetáculo “Dom Bago – O Infante” era uma comédia que fazia o uso de máscaras mas, curiosamente, não usava improviso a exemplo das antigas comédias dell'arte italianas onde improvisavam sobre um roteiro.
Aqui havia sim um texto. Era a história de um simplório pintor de cercas , Bagolino(inspirado em Arlequino), casado com Dona Mipimba – uma espécie de Columbina - criada da casa de um médico(el doctore), cujo filho Bernardo se apaixonara por Fabiene, sobrinha de Dom Bago. O conflito da encenação se dá quando o Capitão, uma personagem mesquinha e vilã, pretende a mão da donzela e para isso intenta duelar com Bernardo para ganhar tal direito.
Estávamos passando um ensaio “paradão”, como se diz no jargão teatral. As cenas são paradas para que o diretor passe indicações ao elenco. É quase como se passasse um pente fino, ou seja, as cenas são repetidas exaustivamente. Isso explicava perfeitamente o meus sono.
Não. Minto. Meu sono não se deve a repetição das cenas e sim por ter madrugado com uma das atrizes.
Havíamos ensaiado até mais tarde no dia anterior e decidimos ir bebericar uma cervejinha na Biroska do Kaio, um boteco frequentado por artistas de diversas áreas. Lá se encontravam todo tipo de malucos - como carinhosamente nos chamávamos - desde poetas, atores, bailarinos, pintores, diretores, filósofos e iluminador, como era o meu caso.
Já passava das 4 horas da manhã quando Kaio inciou a “procissão dos lava pés”, como era chamado a forma do proprietário lavar o piso do estabelecimento. Ele o fazia a base de baldadas de água e sabão em pó, mesmo com os últimos clientes ainda dentro da Biroska, o que sempre causava protestos, vaias e pedidos de beber a “saideira” ou “expulsadeira”.
- E agora? - Perguntou-me lídia com seu olhar lânguido.
- Agora acabou. Vamos pra casa dormir. - Disse.
- Nã nãni nãnão! Vamos pra minha casa comer. Fiz um estrogonofe maravilhoso ontem. É só esquentar...
- Jura?
- Juro.
Fomos. Mas não sem antes virarmos nossos copos, batendo com eles na mesa com força. Como fazem os piratas nos filmes de cinema ao final do último gole. Daí fomos expulsos.
Lídia e eu saíamos as escondidas havia algum tempo, a pedido dela. É claro que todos do elenco já sabiam, mas faziam de conta que não sabiam de nada. Ator adora um de faz de conta...
E por falar nisso, outra coisa que Lídia fazia de conta era cozinhar. Por isso passamos numa loja de conveniências e compramos pizza para micro-ondas. Enfim, entre mortos e feridos, vinhos e músicas, fomos dormir na hora de acordar. O que não é nada bom para os ensaios, ainda que a estreia estivesse longe. A dor de cabeça e o sono derrubam qualquer ser humano.
Quando a gente menos espera já está dormindo novamente. Era o meu caso. Sem me dar conta terminara o cigarro e estava nos braços de Morpheus. sonhando novamente. No sonho já trocara todas as gelatinas, o ensaio terminara, o diretor adorara os resultados. Tinha sido ótimo!
Mas de repente acordei com telefone interno tocando insistentemente num volume quase que imperceptível.
- Alô...
- Cadê você? - Perguntou-me o técnico da casa – A gente está esperando fazem uns 10 minutos. Já abaixamos a vara da contra luz que você pediu. Você quer fazer o que com a contra-luz?
- Ah, é. Sim. A azul. Precisamos trocar por lavanda.
- Lavanda mais aberta ou mais fechada? - Ele se referia à tonalidade da cor lavanda. Existem vários tons.
- Espera ai. Já estou descendo para escolher.
- Tudo bem. Mas não demore.
Quando cheguei ao palco percebi que grande parte do elenco nem havia saído do recinto e estavam todos largados no corredor da plateia deitados. Parecia a sala de emergência de um pronto socorro. Alguns comiam biscoitos e outros compartilhavam garrafas de água mineral.
-Ué? - Disse - Fizeram a maior festa quando souberam do intervalo, e nem sequer saíram do teatro...o que houve?
- Ah...você nem imagina. - Falou um dos atores sem se levantar. - Sabe ontem na madrugada, depois que o Kaio fechou a Biroska?
Todos começaram a rir e a balbuciar várias expressões inaudíveis.
- Não sei não. Acho que saí antes de vocês.
- Hum. É verdade, e muito bem acompanhado, né? - Observou outro ator ao fundo.
- Cala a boca, Norberto! - Disse Lídia em seco.
- Eu não vi nadinha de nada... - Falou Hortência com sua vozinha rouca.
- Nem eu. Eu estava para lá de Bagdá! - Completou Toni. O ator ao fundo apenas fez sinal de positivo com a mão.
- Tá. O que houve depois que saímos? - Perguntei com muita curiosidade. Porém, antes que me respondessem um dos técnicos me deu uma pasta cheia de gelatinas de cor lavanda para que eu escolhesse o tom. Enquanto eu escolhia, Toni continuou:
- Então. A gente estava saindo quando a Hortência sugeriu passarmos na casa do Jackson para fazer-lhe uma surpresa. Era aniversário dele.
- Ah, é mesmo? - Surpreendi-me - Aquele safado não disse nada ontem, e nem veio hoje. - Todos deram uma pausa (eu diria até que teatral), e depois caíram na gargalhada.
- Jackson não virá! - Falou Norberto com voz trêmula e gutural. Fantasmagórica. Foi o suficiente para todos se contorcerem no chão de tanto dar risadas.
- Essas aqui. - Disse eu ao técnico, e entreguei-lhe as gelatinas lavanda que queria. - E então gente, o que houve ontem? Por que o Jackson não veio?
- A gente foi na casa do Jackson. - Continuou Hortência.
- Só que ele não estava. - Emendou Toni.
- E aí? - Perguntei.
- E ai que ficamos sabendo que ele tinha ido para a casa da família dele lá no interior e só vai voltar na semana que vem.
- Mas o que tem isso demais?
- Acontece que a gente topou com ele junto dos atores da companhia Panis et Circenses pela rua e acabamos indo para a praia.
- Todos?
- Todos.
- E eu achando que havia exagerado. - Pensei comigo. - E então...
- Em conclusão. Chegamos ainda a pouco.
- Quer dizer que vocês estão “virados”?
- Completamente. - Disse Hortência – E pelo visto o ensaio ainda vai longe.
- E Jackson não virá! - Completou Toni - Foi o único que se deu bem!
- Malandrinho, ele. - Concordei me dirigindo para Felipe, um dos técnicos que já estava no alto da escada para dar início a afinação de luz. Afinar a luz no teatro, ou no balé, show, ópera, enfim, é regular a abertura ou fechamento do carrinho interno de alguns refletores para ampliar ou diminuir uma área iluminada. Outra afinação é a altura do refletor em relação ao ponto a ser iluminado. O início da área iluminada e seu limite final.
Terminada a afinação subi para a cabine e acendi um cigarro. Tinha levado comigo uma xícara de café fresquinho dos bons. Tudo que uma pessoa ressacada e virada em nada, sem dormir, precisava.
- Sabe que é proibido fumar no teatro? - Fui pego de surpresa. Era Lídia com sua voz meiga.
- Sim eu sei. - Falei com alegria por ouvir aquela voz novamente.
- Gosta de viver perigosamente não é, meu homem da luz?
- Minha luz é você. - Respondi eu, abobalhado. - Que brega, né? - Tentei concertar ainda meio sem saber o que dizer. - Ridículo.
- É foi horrível. - Disse ela rindo. Nesse instante puxei-a pelas mãos delicadamente para perto da mesa de luz e nos beijamos carinhosamente. Quando novamente o telefone tocou - Alô! - Disse um pouco contrariado.
- Podemos recomeçar? - Era o diretor.
- Sim. Podemos. - Despedimo-nos com mais um beijo e Lídia desapareceu pela porta a fora. - A partir de onde? - Perguntei lá de cima, ainda vendo Lídia subir apressadamente ao palco.
- De onde paramos. - Disse ele colocando os óculos e lendo o texto - Batida na porta. Efeito de luz da porta. Confere?
- Confere. - Concordamos todos.
- Atenção! Três, dois, um...
Uma pausa de uns quatro segundos e a cena se repetiu como antes do intervalo. Toda aquela sequencia de ações no palco eram seguidas e sublinhadas com a trilha precisa e com os movimentos de luz que eu operava de acordo com o roteiro a minha frente. A porta se abrira e um foco de luz acentuava a presença de Bernardo que vinha rever sua amada Fabiene. Em seguida Bagolino acompanhado por Dona Mipimba irrompem a cena drasticamente anunciado que o terrível Capitão se aproxima para o duelo. Ouve-se um murmurinho do povo do vilarejo de Apupava Norte. Um marreco azul sobrevoa a plateia seguido de pequenas fadas multicoloridas derramando um pozinho brilhante feito purpurina. Numa coreografia sensacional os atores com pernas de pau e máscaras em xadrez branco e vermelho trazem para a cena uma enorme tigela lilás de onde saem tigres polares, totalmente brancos. Um exército Romano empreende uma sangrenta luta, mas de repente todos param. O Capitão do exército Romano gesticula para a cabine. Todas as personagens acenam e apontam para cima.
- Luz! Luz! - Dizia Toni, vestido de Capitão, gesticulando como um náufrago em busca de socorro.
- Cadê a Luz????
Era a deixa! Aliás, havia perdido a deixa.
- Perdeu a deixa ! - Disse o diretor já perdendo também a paciência.
E de repente veio-me a luz!
- Temos que parar com o ensaio por hoje! - Disse eu de súbito – Temos um cabo em curto circuito. Corremos o risco de incendiar o teatro.
- Sério? Era só o que me faltava... Que cabo é esse?
- É um fio. Tá pegando fogo aqui. Vou desligar todo o sistema de luz. O ensaio vai ter que ficar para segunda-feira. Sábado e domingo o teatro tem função. Sinto muito, mas o ensaio de hoje termina aqui.
No palco o elenco ia guardando figurinos e adereços num misto de muita alegria e alívio. Fui até cumprimentado efusivamente por Hortência e por Toni que antes de sair ainda disse:
- Gente, não vamos ficar assim tristes não. Uma rodada de cerveja na Biroska do Kaio por minha conta! - Todos aplaudiram muito. Foi ovacionado. Apenas o diretor ficou desconsolado:
- Ora, onde é que já se viu, perto do ano 2020 e um ensaio inteiro interrompido por causa de um fio.

FIM






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