Ano Novo !
Vamos de Conto então...
POR
UM FIO
Estava
entorpecido pela sonoridade daquela conversa. Já fazia muito tempo
que não escutava um diálogo como aquele, hipnótico. Pisquei, e
naquele milésimo de segundo ouvi suas vozes como que caminhando ao
longe. Afastavam-se cada vez mais de mim. Pareciam estar flutuando
num córrego muito calmo que os levava suavemente. Aquelas palavras -
que agora mal conseguia ouvir – de súbito transformavam-se em
desenhos sem nexo, mas que, inexplicavelmente, faziam muito sentido.
Eram parte de uma coreografia multicolorida, repleta de imagens. E
neste balé surreal surgiam figuras encantadoras que me arrastavam
cada vez mais para dentro de um mundo fascinante, onírico.
Confortavelmente - e eu me sentia muito confortável, relaxado e
seguro – ia me entregando cada vez mais e mais. E de repente a voz:
- A
deixa! A deixa!
-
O quê? - Disse eu gritando num salto da cadeira onde havia pegando
no sono.
-
A deixa! Você perdeu
a deixa. Olha. Está
aqui: “Ela pega o copo.(som
de passos).
Batem à porta.”. A
luz devia mudar para “efeito porta”. Cadê o efeito da porta?
-
Hãm?
-
O que há com você. Estava dormindo?
-
Ah, claro. O efeito da porta.... Desculpe. Acho que acabei comendo
mosca. Podemos passar a cena novamente? - Ele ficou me olhando
pensativo.
Espiei
o reloginho do monitor e vi que já eram quase duas horas da tarde.
Nós estávamos naquele teatro desde as nove horas da manhã com
apenas uma pequena pausa para um café e um cigarrinho.
-
Na verdade não. - Continuou ele - Vamos fazer uma pausa agora.
Atenção todo mundo! - Disse em voz alta falando pela janela da
cabine de iluminação para o elenco que estava no pequeno palco do
glorioso teatro Aurora - Faremos uma pausa de trinta minutos. Quem
quiser sair para comer alguma coisa pode ir mas tem que voltar
rapidinho. Allan, compra um salgado e um guaraná pra mim, depois te
pago.
-
Ainda bem. - Disse eu aliviado - Vou aproveitar para tomar um café
reforçado e fumar um cigarro. Está tudo bem?
-
Sim, sim. Tudo bem sim. – Falou sem muita convicção.
-
Não parece. O que foi?
-
É que fico na dúvida se aquela cor azul que estamos usando na
contra-luz da cena do castelo esta funcionando como deveria.
-
Ah, não? E como deveria funcionar? - Perguntei num misto de
curiosidade com zombaria. - Olhou-me novamente com muita seriedade.
-
Não sei, cara. Queria um tom menos festivo. Acho o azul meio
que...sei lá.
-
Sei, sei. Azul demais.
-
Isso ai! Azul demais. Exatamente.
-
Posso tentar trocar as gelatinas de cor azuis por um tom lavanda, se
você quiser(as gelatinas são filtros que quando fixadas na frente
dos refletores geram determinada cor filtrando as demais cores).
-
Demora muito?
-
Uns trinta minutos.
-
Tudo isso?
-
O que você quer? Temos que colocar a escada no palco, preparar as
gelatinas, troca-las e depois afinar os refletores novamente.
Ok.
Faça isso então. - Em seguida colocou outra vez a cabeça para fora
da janelinha - Pessoal, mudança! Uma hora de intervalo. - Disse lá
de cima para a alegria geral de todos lá de baixo. Houve até quem
festejasse como se a seleção Brasileira tivesse feito um gol numa
final de copa do mundo.
Esperei
ele sair da cabine e acendi meu cigarro no ato. Peguei o telefone e
informei aos técnicos da casa que trocaríamos as gelatinas da
última vara de luz e que já estaria descendo para ajudá-los. Eles,
que por sua vez estavam de folga, prontamente invadiram o palco
levando a enorme escada.
O
espetáculo “Dom Bago – O Infante” era uma comédia que fazia o
uso de máscaras mas, curiosamente, não usava improviso a exemplo
das antigas comédias dell'arte italianas onde improvisavam sobre um
roteiro.
Aqui
havia sim um texto. Era a história de um simplório pintor de cercas
, Bagolino(inspirado em Arlequino), casado com Dona Mipimba – uma
espécie de Columbina - criada da casa de um médico(el doctore),
cujo filho Bernardo se apaixonara por Fabiene, sobrinha de Dom Bago.
O conflito da encenação se dá quando o Capitão, uma personagem
mesquinha e vilã, pretende a mão da donzela e para isso intenta
duelar com Bernardo para ganhar tal direito.
Estávamos
passando um ensaio “paradão”, como se diz no jargão teatral. As
cenas são paradas para que o diretor passe indicações ao elenco. É
quase como se passasse um pente fino, ou seja, as cenas são
repetidas exaustivamente. Isso explicava perfeitamente o meus sono.
Não.
Minto. Meu sono não se deve a repetição das cenas e sim por ter
madrugado com uma das atrizes.
Havíamos
ensaiado até mais tarde no dia anterior e decidimos ir bebericar uma
cervejinha na Biroska do Kaio, um boteco frequentado por artistas de
diversas áreas. Lá se encontravam todo tipo de malucos - como
carinhosamente nos chamávamos - desde poetas, atores, bailarinos,
pintores, diretores, filósofos e iluminador, como era o meu caso.
Já
passava das 4 horas da manhã quando Kaio inciou a “procissão dos
lava pés”, como era chamado a forma do proprietário lavar o piso
do estabelecimento. Ele o fazia a base de baldadas de água e sabão
em pó, mesmo com os últimos clientes ainda dentro da Biroska, o que
sempre causava protestos, vaias e pedidos de beber a “saideira”
ou “expulsadeira”.
- E
agora? - Perguntou-me lídia com seu olhar lânguido.
- Agora
acabou. Vamos pra casa dormir. - Disse.
- Nã
nãni nãnão! Vamos pra minha casa comer. Fiz um estrogonofe
maravilhoso ontem. É só esquentar...
- Jura?
- Juro.
Fomos. Mas
não sem antes virarmos nossos copos, batendo com eles na mesa com
força. Como fazem os piratas nos filmes de cinema ao final do último
gole. Daí fomos expulsos.
Lídia e
eu saíamos as escondidas havia algum tempo, a pedido dela. É claro
que todos do elenco já sabiam, mas faziam de conta que não sabiam
de nada. Ator adora um de faz de conta...
E por
falar nisso, outra coisa que Lídia fazia de conta
era
cozinhar. Por isso passamos numa loja de conveniências e compramos
pizza para micro-ondas. Enfim, entre mortos e feridos, vinhos e
músicas, fomos dormir na hora de acordar. O que não é nada bom
para os ensaios, ainda que a estreia estivesse longe. A dor de cabeça
e o sono derrubam qualquer ser humano.
Quando a
gente menos espera já está dormindo novamente. Era o meu caso. Sem
me dar conta terminara o cigarro e estava nos braços de Morpheus.
sonhando novamente. No sonho já trocara todas as gelatinas, o ensaio
terminara, o diretor adorara os resultados. Tinha sido ótimo!
Mas de
repente acordei com telefone interno tocando insistentemente num
volume quase que imperceptível.
- Alô...
- Cadê
você? - Perguntou-me o técnico da casa – A gente está esperando
fazem uns 10 minutos. Já abaixamos a vara da contra luz que você
pediu. Você quer fazer o que com a contra-luz?
- Ah, é.
Sim. A azul. Precisamos trocar por lavanda.
- Lavanda
mais aberta ou mais fechada? - Ele se referia à tonalidade da cor
lavanda. Existem vários tons.
- Espera
ai. Já estou descendo para escolher.
- Tudo
bem. Mas não demore.
Quando
cheguei ao palco percebi que grande parte do elenco nem havia saído
do recinto e estavam todos largados no corredor da plateia deitados.
Parecia a sala de emergência de um pronto socorro. Alguns comiam
biscoitos e outros compartilhavam garrafas de água mineral.
-Ué? -
Disse - Fizeram a maior festa quando souberam do intervalo, e nem
sequer saíram do teatro...o que houve?
-
Ah...você nem imagina. - Falou um dos atores sem se levantar. - Sabe
ontem na madrugada, depois que o Kaio fechou a Biroska?
Todos
começaram a rir e a balbuciar várias expressões inaudíveis.
- Não
sei não. Acho que saí antes de vocês.
- Hum. É
verdade, e muito bem acompanhado, né? - Observou outro ator ao
fundo.
- Cala a
boca, Norberto! - Disse Lídia em seco.
- Eu não
vi nadinha de nada... - Falou Hortência com sua vozinha rouca.
- Nem eu.
Eu estava para lá de Bagdá! - Completou Toni. O ator ao fundo
apenas fez sinal de positivo com a mão.
- Tá. O
que houve depois que saímos? - Perguntei com muita curiosidade.
Porém, antes que me respondessem um dos técnicos me deu uma pasta
cheia de gelatinas de cor lavanda para que eu escolhesse o tom.
Enquanto eu escolhia, Toni continuou:
- Então.
A gente estava saindo quando a Hortência sugeriu passarmos na casa
do Jackson para fazer-lhe uma surpresa. Era aniversário dele.
- Ah, é
mesmo? - Surpreendi-me - Aquele safado não disse nada ontem, e nem
veio hoje. - Todos deram uma pausa (eu diria até que teatral), e
depois caíram na gargalhada.
- Jackson
não virá! - Falou Norberto com voz trêmula e gutural.
Fantasmagórica. Foi o suficiente para todos se contorcerem no chão
de tanto dar risadas.
- Essas
aqui. - Disse eu ao técnico, e entreguei-lhe as gelatinas lavanda
que queria. - E então gente, o que houve ontem? Por que o Jackson
não veio?
- A gente
foi na casa do Jackson. - Continuou Hortência.
- Só que
ele não estava. - Emendou Toni.
- E aí?
- Perguntei.
- E ai
que ficamos sabendo que ele tinha ido para a casa da família dele lá
no interior e só vai voltar na semana que vem.
- Mas o
que tem isso demais?
-
Acontece que a gente topou com ele junto dos atores da companhia
Panis et Circenses pela rua e acabamos indo para a praia.
- Todos?
- Todos.
- E eu
achando que havia exagerado. - Pensei comigo. - E então...
- Em
conclusão. Chegamos ainda a pouco.
- Quer
dizer que vocês estão “virados”?
-
Completamente. - Disse Hortência – E pelo visto o ensaio ainda vai
longe.
- E
Jackson não virá! - Completou Toni - Foi o único que se deu bem!
-
Malandrinho, ele. - Concordei me dirigindo para Felipe, um dos
técnicos que já estava no alto da escada para dar início a
afinação de luz. Afinar a luz no teatro, ou no balé, show, ópera,
enfim, é regular a abertura ou fechamento do carrinho interno de
alguns refletores para ampliar ou diminuir uma área iluminada. Outra
afinação é a altura do refletor em relação ao ponto a ser
iluminado. O início da área iluminada e seu limite final.
Terminada
a afinação subi para a cabine e acendi um cigarro. Tinha levado
comigo uma xícara de café fresquinho dos bons. Tudo que uma pessoa
ressacada e virada em nada, sem dormir, precisava.
- Sabe
que é proibido fumar no teatro? - Fui pego de surpresa. Era Lídia
com sua voz meiga.
- Sim eu
sei. - Falei com alegria por ouvir aquela voz novamente.
- Gosta
de viver perigosamente não é, meu homem da luz?
- Minha
luz é você. - Respondi eu, abobalhado. - Que brega, né? - Tentei
concertar ainda meio sem saber o que dizer. - Ridículo.
- É foi
horrível. - Disse ela rindo. Nesse instante puxei-a pelas mãos
delicadamente para perto da mesa de luz e nos beijamos
carinhosamente. Quando novamente o telefone tocou - Alô! - Disse um
pouco contrariado.
- Podemos
recomeçar? - Era o diretor.
- Sim.
Podemos. - Despedimo-nos com mais um beijo e Lídia desapareceu pela
porta a fora. - A partir de onde? - Perguntei lá de cima, ainda
vendo Lídia subir apressadamente ao palco.
- De onde
paramos. - Disse ele colocando os óculos e lendo o texto - Batida na
porta. Efeito de luz da porta. Confere?
-
Confere. - Concordamos todos.
-
Atenção! Três, dois, um...
Uma pausa
de uns quatro segundos e a cena se repetiu como antes do intervalo.
Toda aquela sequencia de ações no palco eram seguidas e sublinhadas
com a trilha precisa e com os movimentos de luz que eu operava de
acordo com o roteiro a minha frente. A porta se abrira e um foco de
luz acentuava a presença de Bernardo que vinha rever sua amada
Fabiene. Em seguida Bagolino acompanhado por Dona Mipimba irrompem a
cena drasticamente anunciado que o terrível Capitão se aproxima
para o duelo. Ouve-se um murmurinho do povo do vilarejo de Apupava
Norte. Um marreco azul sobrevoa a plateia seguido de pequenas fadas
multicoloridas derramando um pozinho brilhante feito purpurina. Numa
coreografia sensacional os atores com pernas de pau e máscaras em
xadrez branco e vermelho trazem para a cena uma enorme tigela lilás
de onde saem tigres polares, totalmente brancos. Um exército Romano
empreende uma sangrenta luta, mas de repente todos param. O Capitão
do exército Romano gesticula para a cabine. Todas as personagens
acenam e apontam para cima.
- Luz!
Luz! - Dizia Toni, vestido de Capitão, gesticulando como um náufrago
em busca de socorro.
- Cadê a
Luz????
Era a
deixa! Aliás, havia
perdido a deixa.
- Perdeu
a deixa !
- Disse o diretor já perdendo também a paciência.
E
de repente veio-me a luz!
-
Temos que parar com o ensaio por hoje! - Disse eu de súbito –
Temos um cabo em curto circuito. Corremos o risco de incendiar o
teatro.
-
Sério? Era só o que me faltava... Que cabo é esse?
-
É um fio. Tá pegando fogo aqui. Vou desligar todo o sistema de luz.
O ensaio vai ter que ficar para segunda-feira. Sábado e domingo o
teatro tem função. Sinto muito, mas o ensaio de hoje termina aqui.
No
palco o elenco ia guardando figurinos e adereços num misto de muita
alegria e alívio. Fui até cumprimentado efusivamente por Hortência
e por Toni que antes de sair ainda disse:
-
Gente, não vamos ficar assim tristes não. Uma rodada de cerveja na
Biroska do Kaio por minha conta! - Todos aplaudiram muito. Foi
ovacionado. Apenas o diretor ficou desconsolado:
-
Ora, onde é que já se viu, perto do ano 2020 e um ensaio inteiro
interrompido por causa de um fio.
FIM